quinta-feira, 24 de março de 2011

Puuum!

Sócrates estatelou-se.
Não se sabe se no decurso de um violento tackle de um jogo de interesses conjunto de Keynes com Marx e Mao, apadrinhado pelo filho pródigo do Poço de Boliqueime, ou se, num assomo de ousadia perante tantas câmaras instaladas, por simulação de um ligeiro toque entre pés do seu passo sempre apressado.
O resultado é conhecido.
Os que não se entenderam e arrastaram o País ás urnas vão agora submeter-se ao voto popular almejando fôlego de maioria.
Convirá, no entanto, perceber onde chegámos.
Gastamos mais do que produzimos e fazemo-lo alegremente há décadas.
Desconhecemos o real estados das contas públicas e não percebemos onde se enterrou tanto bilião.
Destruimos a nossa indústria pesada, a nossa agricultura e a nossa pesca porque eram coisas sujas, poluentes e próprias de Países pobres e remediados.
Apostámos no servilismo turístico como se o Sol e o golfe fossem panaceias sem fim.
Não se vê como espremendo os já baixos salários se conseguirá pagar o que se deve num País que já exporta licenciados e não atrai investimento.
Sócrates tem mau feitio. É, sem ofensa à Mãe Natureza, um eucalipto. Seca tudo em volta e é incapaz de existir num ambiente negocial ou de consenso. Não acredita em Passos Coelho. Acha-o um puto imaturo. Não acredita na esquerda que tudo faz para não ter um Governo Socialista. Não acredita no homem da Lavoura. Nem parece acreditar no seu próprio Partido, cada vez mais monocórdico.
Mas Sócrates é um resistente. Ninguém, que não fosse ele, resistiria a uma comunicação social hostil, a uma Justiça hostil, a um Presidente hostil. O homem tem nervos de aço e vontade férrea de vencer.
Não sei é se é isto que o País precisa neste momento mas duvido que o seja.
Vamos mesmo ter que pedir a alguém que se chegue á frente para pagar as nossas contas simulando, descaradamente, que nos esquecemos da carteira em casa.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Dízima

Instituído pelos romanos, este imposto era cobrado sobre a décima parte do valor dos bens de importação ou exportação.
D. João I determinou em 1410 este imposto a pedido da alfândega do Porto, e em 1461 as queixas de abuso por parte do dizimeiro, escrivães e almoxarife levaram D. Afonso V a regulamentar de novo. Este mesmo rei fixou em 1463 os objetos a que a dízima do porto de Lisboa devia ser aplicada e a concessão de alvarás.
Cada casa de despacho de Lisboa tinha uma tabela de valores e o imposto cobrado consistia usualmente em dez por cento de dízima e dez por cento de sisa. Havia, no entanto, localidades em que os valores variavam dos instituídos, por especial privilégio concedido pelo rei.
Em 2011 o dizimeiro Sócrates recuperou a Dízima, aplicando-a sobre o valor do trabalho aos funcionários públicos que auferiam valores absurdos acima de 4.000 € brutos mensais. Os dizimados questionam a equidade, aguardam pronuncia dos almoxarifes constitucionais e interrogam-se sobre o esforço que lhes é pedido, do tempo em que vai decorrer e dos seus resultados.
Doutros reinos chegam notícias de muitos abusos sobre o povo. 
Os nobres, prudentemente singelos de expressão, seguem sem azedumes de maior na corte.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A memória ou a oportuna falta dela

Lembro-me bem.
Dirigimo-nos, eu e a minha companheira de sempre, ao notário para fazer a escritura da nossa primeira casa, desde logo presa a um empréstimo hipotecário à Caixa Geral de Depósitos.
Estávamos em Peniche, em 1989 e a taxa de juro batia nos 30%, acompanhada por muitas vénias e agradecimentos ao funcionário da CGD que nos tinha feito o favor de despachar o nosso processo daquela pilha à sua esquerda, envolta em fumo de displicente cigarro e super agradecidos do aval do nosso colega e amigo Dr. Coelho e Silva, exemplo magno da mão que se dá a um colega mais novo.
A mão direita estava suada durante a leitura daqueles palavrões jurídicos todos e a tremer ficou quando chamados a colocar a nossa vida na expressão azul de uma caneta Bic Crystal.
Trinta anos de compromisso, juros atrás de juros, combatidos com noites, fins-de-semana e consultório até horas obscenas.
A vida foi poupada, honrando os nossos pais, funcionários públicos num antanho apertado e de vida limpinha, o que permitiu pagamento antecipado e propriedade plena.
Muitos anos depois, a segunda escritura, agora de uma propriedade nas Quintas da Serra, Freguesia de Peraboa, um luxo burguês de uma casa de pedra para reconstruir e 3 hectares de silvas e mato para desbravar, mas com uma vista de sonho para a nossa Covilhã, extensível numa cascata contemplativa de presépio pela Varanda dos Carqueijais, ruínas do Sanatório dos Ferroviários, Penhas da Saúde e Terroeiro e ao fundo, imponente e majestática, a Torre com os seus futuristas edifícios da Força Aérea e o perfil do conquistado Cântaro Magro.
Lembro-me muito bem das duas escrituras que fiz.
Correspondem a períodos muito específicos da nossa vida familiar e representam o investimento de todo o esforço de uma vida de trabalho.
Como as posso esquecer?
Como posso confiar em alguém que não se lembra de ter feito uma escritura de uma casa?
Decerto esse alguém ou não se lembra porque não é oportuno lembrar-se ou, muito mais grave, porque aquela escritura não representa um esforço honesto de vida mas sim um acréscimo fácil de património.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Revanche Liberal

No i de hoje Correia de Campos serve a sua fria revanche a quem, de dentro, o atacou no seu desempenho liberal à frente do Ministério da Saúde.
De forma cristal clear, como dizem pleonasticamente os americanos, Correia de Campos não acredita que Manuel Alegre vença as eleições presidenciais e, mais do que isso, acha que Cavaco Silva vai ganhar à primeira volta:

"Manuel Alegre não representa uma alternativa. Podia ter representado no passado, mas no actual contexto não", afirma ao i Correia de Campos, convicto de que outra razão forte para não haver segunda volta é a de que "o país precisa de estabilidade e o Presidente incumbente garante essa estabilidade".


A ideia expressa por este "socialista", membro da Comissão Política do PS e colocado em reforma dourada no Parlamento Europeu, de que Cavaco representa a estabilidade não surpreende.
O Partido Socialista será sempre uma família política que congrega liberais com social-democratas e com socialistas convictos.
O que aqui espanta é ver Correia de Campos ainda com azia pela sua saída do Ministério da Saúde e com mau perder pela interrupção da liberalização do SNS iniciada por Luis Filipe Pereira. 
Correia de Campos faria um bom Ministro da Saúde às ordens de Passos Coelho e na vigência presidencial de Cavaco, o garante da estabilidade.
Não sei é se as ideias de Cavaco e de Passos Coelho para o SNS são as melhores para o País mas temo que, com a ajuda de muitos "socialistas" saberemos em breve.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A ironia na saúde e na doença

A Saúde e, principalmente, a falta dela, pode ser muito irónica.
O País sabe que Alberto João Jardim sofreu um enfarte agudo de miocárdio e deseja-lhe, sem excepção e sem hipocrisia, rápidas melhoras e rápido regresso à vida activa.
A doença, e muito mais a morte, se convenientemente mediatizadas, têm a virtude de aplanar opiniões e colocar todos, sem excepção, no campo das pessoas de bem, de bom feitio, de elevada estatura e de irrepreensível estatuto moral.
Todos já esqueceram que AJJ vociferou recentemente, em plena Assembleia Legislatura Regional, contra os médicos grevistas e os médicos do Hospital Nélio Mendonça em geral, epitetando-os num chorrilho impublicável sem a competente bolinha vermelha, jurando deles não precisar e, se o destino o atraiçoasse contra sua vontade expressa, recorreria mais rápido ao continente, mesmo cubano, ou ao estrangeiro em vez do Serviço Público que, em tempos, acarinhou e ajudou a crescer.
O tempo, grande escultor, nem precisou de porfiar muito. Nem um mês volvido, foi no Hospital que publicamente desprezou que encontrou competência técnica de ponta para ver recanalizadas as suas coronárias entupidas com cubanos (charutos claro!) e tensas (hiper) com clamores de revolta dos seus pares partidários, em momento decisivo de escolha de cadeiras, cansados de um líder que tudo seca em volta.
O trágico, não confirmado e segundo as más línguas do costume, a que me associo, é que o enfarte terá começado a dar mossa no músculo cardíaco na noite de 5ª para 6ª feira e seguiu, após competente "não é nada", com ecg e tudo, alegremente pela agenda política e pela escolha da lista aos orgãos do PSD Madeira, explodindo o que restava.
Mais uma vez, ironicamente, foi junto dos seus muito próximos que não encontrou conforto precoce para a maleita e foi junto dos seus que provavelmente a viu crescer e agravar até ao competente trato profissional dos médicos do Hospital Dr. Nélio Mendonça.
Amanhã, recanalizado, oxigenado e medicado, será tempo de esquecer tudo e voltar ao vitupério.
Com ironia.
Sem memória.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

SUCH

O Tribunal de Contas publicou no seu sítio na net a Auditoria ao Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH).
Note-se que o SUCH é uma entidade classificada como pessoa colectiva de utilidade pública administrativa, de natureza associativa e a ele estão associados os principais Hospitais EPE.
Os resultados, mesmo esperados, não deixam de surpreender, quer pela dimensão da desgraça quer pelos envolvidos, mesmo que sobre o tema o conhecido Blog SaúdeSA, sempre rápido no gatilho e na crítica, bastas vezes certeira e justa, ainda não tenha dedicado qualquer linha.
De facto a referida Auditoria chamusca os titulares das múltiplas e discutíveis opções, bastas vezes provenientes de gestores de saúde e administradores hospitalares de méritos mediaticamente reconhecidos.
Mais extraordinário é que seja posto em causa, finalmente!, a criação de múltiplas empresas sob a mesma designação Somos que se revelaram, segundo a mesma Auditoria, de desastrosa execução.

Algumas pérolas:
1 - Nas aquisições de bens e serviços ao Serviço de Utilização Comum dos Hospitais, as entidades públicas associadas, nem sempre têm aplicado o regime jurídico da contratação pública e garantido os requisitos gerais para a autorização da despesa;
2 - nenhuma das entidades públicas aderentes dos serviços partilhados de gestão de recursos humanos efectuou estudos que fundamentassem a decisão de adesão àqueles serviços;
3 - O Serviço de Utilização Comum dos Hospitais apresenta custos de estrutura injustificados que se têm reflectido na formação de preços praticados por esta Associação, com reflexo negativo no funcionamento dos seus associados, maioritariamente públicos;
4 - As unidades de serviços partilhados criadas pelo Serviço de Utilização Comum dos Hospitais, através da constituição de Agrupamentos Complementares de Empresas – Somos Pessoas, ACE, Somos Contas, ACE, e Somos Compras, ACE – com a participação de operadores económicos privados, não contribuíram para a redução do défice do Serviço Nacional de Saúde, expectável;
5 - A SPMS – Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, EPE, sucedendo nas posições jurídicas dos Somos Pessoas, ACE, Somos Contas, ACE, e Somos Compras, ACE, sem precedência de estudos de viabilidade económico-financeira na óptica microeconómica e macroeconómica/óptica do sector público, que demonstrassem a viabilidade e racionalidade económicas, designadamente pela assunção daquelas posições jurídicas, e irá iniciar a sua actividade utilizando meios físicos, tecnológicos e financeiros que não foram adquiridos, pelo Serviço de Utilização Comum dos Hospitais, no respeito pelo regime jurídico da contratação pública e, consequentemente, nas melhores condições de mercado;
6 - Os custos com as remunerações pagas aos membros do Conselho de Administração do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais registaram um aumento de 50,2% no triénio 2006-2008 (€1.348.051,93), relativamente ao triénio 2003-2005 (€ 897.537,71);
7 - As demais componentes remuneratórias dos membros do Conselho de Administração, onde se contam a atribuição de viaturas, o pagamento de todas as despesas com elas relacionadas e os telemóveis, nunca foram objecto de qualquer deliberação da comissão de vencimentos;
8 - Os prémios pagos por objectivos de cobranças, no biénio 2007-2008, aos 3 Directores Comerciais, no total de € 129.750,00, não acautelaram a boa gestão dos recursos do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais, redundando num despesismo injustificado, que não encontra sustentação no seu fim estatutário - “tomar a seu cargo as iniciativas susceptíveis de contribuir para o funcionamento mais ágil e eficiente dos seus associados” e não contribui para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde;
9 - A atribuição de viaturas a Directores de Departamentos Instrumentais e o pagamento de despesas relacionadas com a sua utilização, bem como, o pagamento de despesas com a utilização de viaturas pelos membros do Conselho de Administração e Directores Comerciais para fins não exclusivamente profissionais constituem um encargo injustificado;
10 - Os Somos Compras, ACE, Somos Contas, ACE, e Somos Pessoas, ACE, foram criados em 2007, com um prazo de vigência de 5 anos. O prazo de vigência do Somos Contas, ACE, foi posteriormente prorrogado até 2017;
11 - Apenas o Somos Compras, ACE, contou com a participação de parceiros institucionais – o Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, EPE, o Centro Hospitalar de Lisboa Central, EPE, e o Hospital de Santa Maria, EPE (actual Centro Hospitalar de Lisboa Norte, EPE) – cada um com uma participação de 3%. Os restantes 86% e 5% constituíam participação do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais e da empresa privada, respectivamente. A participação dos Centros Hospitalares foi autorizada por despacho conjunto do Secretário de Estado do Tesouro e Finanças e pelo Secretário de Estado da Saúde, de 28 de Fevereiro de 2007:
12 - Não existindo parceiros institucionais no Somos Pessoas, ACE, e no Somos Contas, ACE, a participação do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais é de 95% e a das empresas de 5%;
13 - O Serviço de Utilização Comum dos Hospitais seleccionou, tendo por base a análise do currículo das empresas, a Capgemini Portugal, Serviços de Consultoria e Informática, SA, para a área de gestão de recursos humanos; a Accenture – Consultores de Gestão, SA, para a área de gestão financeira e contabilística; a SGG – Serviços Gerais de Gestão, SA, para a área de compras e logística;
14 - O Serviço de Utilização Comum dos Hospitais não procedeu à abertura de um procedimento concorrencial, através de publicidade adequada, não tendo dado oportunidade aos vários operadores económicos de manifestar o seu interesse na constituição das unidades de serviços partilhados;
15 - O estudo de viabilidade económica que sustentou a constituição do Somos Pessoas, ACE, para além dos pressupostos excessivamente optimistas quanto ao número de adesões e às poupanças esperadas, continha diversas incorrecções que, não existindo, evidenciariam a rentabilidade negativa do projecto;
16 - A Administração Regional de Saúde do Algarve, IP, e a Administração Regional de Saúde do Norte, IP, aderiram ao serviço de processamento de salários, em Março de 2008 e Março de 2009, respectivamente, fundamentando-se num estudo do Somos Pessoas, ACE, onde era evidenciado que as mesmas teriam acréscimos de custos com a externalização da função;
17 - A Administração Regional do Centro, IP, cuja adesão ocorreu em Julho de 2008, não confirmou os custos associados à externalização, apesar de ter validado os dados constantes do estudo do Somos Pessoas, ACE, que não evidenciava os custos que se manteriam naquela entidade mas apenas a remuneração a pagar ao Agrupamento;
18 - As decisões de adesão aos serviços partilhados de recursos humanos pelas Administrações Regionais de Saúde do Algarve, do Centro e do Norte, não reuniam os requisitos gerais de autorização da despesa, nomeadamente de economia, eficiência e eficácia;
19 - O balanço da externalização da função de processamento de salários nas três Administrações Regionais de Saúde que aderiram aos serviços partilhados, é negativo, porquanto em nenhuma das entidades se confirmaram as reduções de volume de trabalho estimadas nos protocolos de adesão, houve aumento do volume de trabalho dos funcionários afectos ao processamento de salários, aumentaram o número de reclamações de funcionários quanto à correcção dos seus recibos de vencimento, a tarefa de conferência do processamento salarial tornou-se mais demorada e morosa e a aplicação informática disponibilizada pelo Somos Pessoas, ACE, não contemplava várias funcionalidades que estavam disponíveis na aplicação informática da Administração Central do Sistema de Saúde, IP, anteriormente utilizada para aquele efeito;
20 - Deste modo, o serviço de processamento de salários desenvolvido pelo Serviço de Utilização Comum dos Hospitais, através do Somos Pessoas, ACE, não contribuiu para a eficiência dos associados aderentes, tendo, ainda, constituído um acréscimo de custos para o Erário Público, nomeadamente € 197.328,60, em 2008, e € 418.660,70, em 2009, no caso da Administração Regional de Saúde do Centro, IP, e € 89.318,88, em 2008 e € 121.413,60, em 2009, no caso da Administração Regional de Saúde do Algarve, IP;
21 - O Serviço de Utilização Comum dos Hospitais criou uma quota suplementar de adesão livre, destinada ao reforço dos seus capitais próprios, correspondente a 1/1000 do orçamento anual do associado ou ao valor das prestações directamente contratadas e já facturadas no ano anterior ao associado;
22 - A subscrição da quota suplementar por entidades públicas constitui um acto nulo, nos termos do artigo 133.o, n.o 1, e n.o 2, alínea b), do Código do Procedimento Administrativo, e pode configurar uma infracção financeira susceptível de gerar eventual responsabilidade financeira sancionatória, relativamente aos membros dos Conselhos de Administração das entidades públicas subscritoras;

Estas pérolas são um pequeno extracto do tesouro.
Mas, fundamentalmente, não podemos, nem devemos, esquecer que por detrás de todos estes actos e de todas estas asneiras agora criticadas pelo TC, estão pessoas indicadas politicamente para o desempenho de cargos nos respectivos Conselhos de Administração, muitos dos quais se pavoneiam com pen drives no bolso cantando loas e vendendo paraísos gestionários em power point.
O extraordinário é que até o próprio Correia de Campos, então Ministro da Saúde e Francisco Ramos, então Secretário de Estado, pertenciam a orgãos sociais de empresas Somos, mesmo enquanto desempenhavam os cargos políticos.
Mas continuo engasgado com o silêncio no blog SaúdeSA.
A crítica e a razão têm amigos e lados? É conforme dá jeito? Ou a vigarice é mais ou menos aceitável conforme quem a pratica?
Todos sabemos que nada vai acontecer a quem tanta asneira fez.
O Estado é grande, benévolo, cego e estúpido.



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

2011 para médicos

O que nos trará 2011?
Aperto financeiro, a exploração da palavra crise até ao limite do sustentável, o crescimento da economia paralela, o aumento da apetência para a fuga aos impostos, o desejo de desaparecer, por via de novos projectos ou de aposentação, o aumento da discrepância entre dificuldades mediatizadas e compras de telemóveis e carros topo de gama, etc., etc.
E para médicos?
Mais trabalho, mais doentes, menos médicos, mais responsabilidade, mais perigo e probabilidade de erro.
Parece inevitável a restrição financeira para o SNS. Teremos menos dinheiro mas, parece, as mesmas responsabilidades e o mesmo número de serviços, unidades e urgências. Parece já claro a mudança drástica na medicação, quer por via da obrigatoriedade de o fazer por DCI quer pela inevitabilidade de o ser em suporte digital.
A tentação dos gestores vai ser reduzir equipas, quer em número de médicos quer em qualificação.
2011 será um ano crítico para a qualidade do exercício técnico da Medicina.
Neste contexto é igualmente crítico o dia 19 de Janeiro.
Neste dia elege-se o novo Bastonário da Ordem dos Médicos em segunda volta.
Os médicos eleitores terão que escolher quem melhor terá condições de desempenho num cenário difícil e, principalmente, se o posicionamento da OM se fará, neste contexto, por via de muito chá e simpatia ou se por via de uma tensão e de um confronto q.b., por via de uma continuidade impossível de disfarçar ou por via de algo diferente e socialmente mais aceitável.
Isabel Caixeiro e José Manuel Silva são a antítese um do outro.
A escolha do futuro Bastonário não pode esquecer o que tem de ser feito (credibilizar) e onde tem de ser feito (Portugal em crise financeira).
Mas, para bem dos doentes e dos departamentos jurídicos dos Sindicatos, assoberbados por dezenas de processos de crime, ou cíveis com números indemnizatórios de corar, é essencial que o próximo Bastonário não se desvie um milímetro na defesa da qualidade do exercício técnico da Medicina, da qualidade formativa dos futuros especialistas e da Carreira Médica como suporte técnico e profissional dos médicos.
Da escolha de 19 de Janeiro se fará, também, a História do SNS.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Requiem

O ano de 2011 vai ser o início da mudança radical na realidade do sector da saúde. O corte orçamental superior a 6% sem planeamento, claramente imposto pelas finanças e não por um pensamento estratégico, vai resultar em processos extremamente complexos, conflituosos e que poderão parecer perfeitamente irracionais a nível local. Podem ter alguma racionalidade macro, mas depois as implicações pelo país fora serão difíceis de entender. Não tendo havido um debate alargado entre as várias forças políticas, não havendo um plano para os próximos anos com o que deve ser atingido, em que áreas, sacrificando o quê, concentrando onde, vai ser um processo perfeitamente improvisado num contexto de fragilidade política. Não será a melhor forma de entrarmos na grande mudança do serviço de saúde português. Mas acredito que daqui a quatro anos o sistema será completamente diferente, estará irreconhecível. O sector privado assumirá um papel de liderança a vários níveis, até tecnológico, e o público estará numa situação ainda mais frágil do que hoje, as políticas de financiamento serão diferentes e um certo conceito de Serviço Nacional de Saúde (SNS) será necessariamente repensado. Paulo Kuteev Moreira
Este texto faz parte de uma entrevista publicada no Jornal i de hoje. Merece leitura pois antecipa o que parecia lógico a muitos: a crise deveria servir para consolidar o SNS e isso só seria possível por via de encerramento e concentração de serviços, nomeadamente de serviços de urgência hospitalar, concentração nalgumas especialidades, nomeadamente nas grandes cidades, repensar limites nalgumas respostas terapêuticas mais "criativas", instituir com urgência um formulário de medicamentos em ambulatório, com limites claros no acesso a algumas prescrições "inovadoras".
O Ministério da Saúde vive momentos difíceis. A Ministra ufana-se em demonstrar que depois dela o caos, um dos seus Secretários só faz campanha autárquica e o outro parece ainda não ter percebido como os orçamentos se esboroam sem apelo.
Mas, infelizmente, adia-se mais do que se decide, atamanca-se mais do que se reforma.
Assim PKM terá razão. E é pena.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Até dá pena!

Ver Helena André sair em defesa do maior e mais desleixado patrão até dá pena.
A sua rápida transição da liderança do sindicalismo europeu para Ministra do Trabalho alvo de uma greve geral até dói.
O que parece claro neste dia de luta à moda antiga é que Helena André fechou a porta a um regresso à sua UGT e ao seu passado.
Não deixa de ser curioso ver John Monks, Secretário-Geral da CES em Portugal em apoio inequívoco da greve geral, prenhe de palavras elogiosas.
Mas é muito difícil de aceitar a confrangedora situação em que se coloca, ao lado do burocrata certinho, Gonçalo Cadilhe dos Santos, na guerra das percentagens e da contagem de serviços públicos abertos ou fechados.
Helena André sabe que a greve existiu, foi efectiva e transversal a muitos extractos políticos, sociais e partidários.
E, obviamente, bem sabe que o descontentamento existe, fruto não de uma negação da percepção ou da interiorização da necessidade de sacrifícios, mas sim da sua efectiva equidade.
Helena André é Ministra do Trabalho de um Governo apanhado num turbilhão e que decide, sem rebuço ou hesitação, aplicar o mais fácil - cortes de salários, aumentos de impostos.
Helena André, hoje claramente EX-sindicalista, é Ministra do Trabalho de um Governo que diz que os cortes nos salários, para além de inconstitucionais, são para sempre, permitindo-se dormir sobre a desvalorização do valor do trabalho e do seu reconhecimento social, num retrocesso civilizacional sem precedentes.
Reconheça-se-lhe a lealdade ao "seu" PM e a coragem.
Mas hoje a sua expressão perante as câmaras não deixava dúvidas a ninguém - desalento, tristeza e, tragicamente, impotência perante a inevitável escalada das tensões sociais.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

De Tigre Celta a Gato Esfolado

Há uns mesitos o tigre Celta era a nossa meta e a nossa vergonha.
Impunha-se reformas estruturais que nos colocassem em posição de seguir o trilho.
Reformas da administração pública, menos e melhor Estado, livre avanço da iniciativa privada, do mercado, da concorrência sã.
Os gestores ao poder, a política regrada e regulada pela Economia e pelos economistas.
Mais flexibilidade nas regras laborais, mais facilidade nos despedimentos e mais liberdade na contratualização.
O mais fantástico era ver as horas de tv e rádio e o ar de superior fastio com que os economistas e, mais grave, os opinadores pseudo-economistas, nos brindavam para demonstrar uma evidência: a Irlanda e o seu modelo económico de crescimento eram para seguir, melhor, para copiar sem demora e sem contestação.
Hoje, vendo o tigre como um gatinho esfolado miando por um pratinho de leite alemão, chinês ou russo, o que me vem á cabeça é a sem vergonha dos mesmos economistas e dos mesmos opinadores pseudo-economistas que persistem em debitar, com o mesmo fastio, novos ídolos e novos paraísos.
A crise financeira tem uma virtude: só um louco acredita num banqueiro, num economista ou num mercado que se auto-regule.