Esta semana morreu a Maria. Tinha sida. Junta-se aos outros dezasseis contabilizados pelo mesmo motivo.
O Pedro e a Rute, com os seus dois gémeos, viram os seus projectos de vida brutalmente interrompidos por um camião desgovernado. São mais quatro vítimas a juntar ás quarenta e seis desta semana nas nossas estradas.
A D. Maria viu o seu sofrimento interrompido. Diabética, já amputada, não resistiu a complicações desta doença. Engrossa a lista dos oitenta e oito portugueses que esta semana foram vítimas de Diabetes Mellitus.
O António não resistiu. Desempregado, o seu excelente curriculo académico não lhe pareceu valer nesta crise. Cortou nalguns medicamentos para a sua tensão tentando, com isso, adiar o desmoronar financeiro familiar que lhe parecia inevitável. O coração não gostou e o enfarte foi extenso e fatal. Junta-se a outros cento e sessenta e cinco portugueses falecidos com o mesmo diagnóstico, só esta semana.
A mercearia do Sr. Manuel hoje não abriu. Achei estranho, habituado que estava a vê-lo, pela manhã, de volta das caixas de fruta que expunha com deleite aos olhos da freguesia. Diz a Celeste, padeira, que o encontrou caído, de boca ao lado e que chamou o INEM. Infelizmente nada puderam fazer. Junta-se aos outros trezentos e doze que morreram esta semana, vítimas de doenças cérebro-vasculares.
A Celeste acabou o seu calvário. Estava um palito, coitada, mas lúcida, conformada pelo destino que lhe reservou um cancro da mama, apoiada na filha e no Centro de Saúde que não lhe largaram a cabeceira com mimos e paparicos. Teve o mesmo destino que outras vinte e oito mulheres que morreram esta semana pelo mesmo motivo e que outros quatrocentos e oito doentes que morreram com cancro.
O Alcides da farmácia disse-me que o Sr. Joaquim morreu. Bronquítico, fácies azul acizentado, já não saia de casa, sempre agarrado à garrafa de oxigénio, prenda de mais de vinte anos nas minas. Junta-se a mais duzentos e dezassete que morreram por doença pulmonar, incluindo oitenta e nove por pneumonia bacteriana.
Passo o olhos pelas primeiras dos jornais. Falam de mortos de fetos. Dizem que é por causa de as mães terem sido vacinadas contra a Gripe A.
Compro três diários. Folheio-os. Fetos mortos. Vacina contra Gripe A à cabeça dos culpados.
Nem uma palavra sobre os bébés que foram forçados a uma existência orfã e prematura. As suas mães não tiveram escolha e estavam grávidas antes de lhes ser dado a optar pela vacinação.
Continuo a folhear. A tragédia por detrás de tantas mortes nesta semana, mil novecentos e sessenta e oito (DGS), muitas evitáveis, muitas adiáveis, não parece comover a imprensa.
O que a leva a ignorar a morte de quase duas mil pessoas, semana após semana, e a valorizar como tragédia as mortes fetais, infelizmente já previstas, independente de humores ou vacinas?
Irá pesar-lhe a consciência por cada grávida que duvidou e que tem uma probabilidade dez vezes maior de vir a ocupar um catre nos cuidados intensivos?
A escrita encanta, destrói, acaricia, acusa, alerta e mata.
O código deontológico dos Jornalistas falará em negligência?
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quinta-feira, 26 de novembro de 2009
sábado, 24 de outubro de 2009
Os Achistas
Estamos num País em que todos acham qualquer coisa e, mais grave, se acham no direito de achar.
Sabem tudo, têm opinião sobre tudo, mesmo que seja sedimentada em textos truncados e sem qualquer base científica.
Dá-se mais valia a um rústico contestatário do que a uma equipa de peritos. Põe-se em causa a honorabilidade de pessoas e instituições porque é giro, é moda e é in. Desde que circule na Net, seja via mail, twitter ou blog, é verdade pura e a seguir sem hesitações.
Cultiva-se a liberdade individual e o direito á indignação e á diferença como se não estivéssemos enterrados até ao pescoço em compromissos societários e em lógicas de grupo e de bem público. Revivemos permanentes Woodstocks e até nos vestimos em conformidade, sendo agora bem deixar crescer as melenas ao nível dos anos 60, certamente para esconder a estupidez e a fragilidade do que lhes está por debaixo.
Vacina da Gripe? Nem pensar. Não levo nem que o Rumsfeld me obrigue. Não está testada. A Gripe é uma invenção. Isto é um golpe publicitário para engordar os ricos.
A juntar ao coro de achistas hyppies, temos agora os Bastonários das Ordens dos Enfermeiros e dos Médicos, Maria Augusta de Sousa e Pedro Nunes. Também estas peças se acham no direito de criar dúvida, defendendo quem, dentro dos profissionais de saúde, se recuse á vacinação que as Autoridades de Saúde preconizam.
Esquecem-se do interesse público, esquecem-se da propagação criminosa de doença infecciosa e aviltam o respeito que deviam demonstrar pelas Orientações Técnicas das Autoridades de Saúde. Agem como párias de um Estado que neles investe, delegando, parte do seu poder.
Esquecem-se, de forma bouçal, que representam (deviam representar) classes profissionais que estão sobre observação atenta e permanente da sociedade.
Porque é que eu me devo vacinar se até os médicos e os enfermeiros não o querem?
Claro que nos países estúpidos a Gripe A continua a ser encarada como uma ameaça séria.
Obama não parece achista e seguiu as indicações das Autoridades de Saúde (Público).
Por cá as nossas (DGS) apelidam de crenças as opiniões de Pedro Nunes e de Maria Augusta de Sousa, e prosseguem no plano traçado, mesmo contra os achistas.
Acho que lhes vamos ficar a dever um obrigado.
Sabem tudo, têm opinião sobre tudo, mesmo que seja sedimentada em textos truncados e sem qualquer base científica.
Dá-se mais valia a um rústico contestatário do que a uma equipa de peritos. Põe-se em causa a honorabilidade de pessoas e instituições porque é giro, é moda e é in. Desde que circule na Net, seja via mail, twitter ou blog, é verdade pura e a seguir sem hesitações.
Cultiva-se a liberdade individual e o direito á indignação e á diferença como se não estivéssemos enterrados até ao pescoço em compromissos societários e em lógicas de grupo e de bem público. Revivemos permanentes Woodstocks e até nos vestimos em conformidade, sendo agora bem deixar crescer as melenas ao nível dos anos 60, certamente para esconder a estupidez e a fragilidade do que lhes está por debaixo.
Vacina da Gripe? Nem pensar. Não levo nem que o Rumsfeld me obrigue. Não está testada. A Gripe é uma invenção. Isto é um golpe publicitário para engordar os ricos.
A juntar ao coro de achistas hyppies, temos agora os Bastonários das Ordens dos Enfermeiros e dos Médicos, Maria Augusta de Sousa e Pedro Nunes. Também estas peças se acham no direito de criar dúvida, defendendo quem, dentro dos profissionais de saúde, se recuse á vacinação que as Autoridades de Saúde preconizam.
Esquecem-se do interesse público, esquecem-se da propagação criminosa de doença infecciosa e aviltam o respeito que deviam demonstrar pelas Orientações Técnicas das Autoridades de Saúde. Agem como párias de um Estado que neles investe, delegando, parte do seu poder.
Esquecem-se, de forma bouçal, que representam (deviam representar) classes profissionais que estão sobre observação atenta e permanente da sociedade.
Porque é que eu me devo vacinar se até os médicos e os enfermeiros não o querem?
Claro que nos países estúpidos a Gripe A continua a ser encarada como uma ameaça séria.
Obama não parece achista e seguiu as indicações das Autoridades de Saúde (Público).
Por cá as nossas (DGS) apelidam de crenças as opiniões de Pedro Nunes e de Maria Augusta de Sousa, e prosseguem no plano traçado, mesmo contra os achistas.
Acho que lhes vamos ficar a dever um obrigado.
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