segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Período de Nojo

Todos sabemos o que é. Quando nos falta alguém ou algo, abrimos um espaço de luto, mais ou menos visível, e ficamos emocionalmente refractários.
Também em política e em sociedade, principalmente naquela que se alicerça na ética e na moral, os períodos refractários deverão ser a almofada da decência.
São ou deveriam ser?
Num movimento negativo em espiral, registamos cada vez mais casos de transição demasiado rápida, demasiado visível, até ostensiva, entre lados da barreira. Cresce um sentido de impunidade moral e de prémio aos mais espertos que achincalha quem pensa e age diferente.
Nos médicos convirá distinguir aquilo que é o exercício de medicina liberal, autónoma, daquilo que é o exercício de medicina subordinada. Uma coisa é ter patrão, salário, horário, hierarquia e subordinação, outra, bem diferente, é exercer o seu múnus na sua casa, com os seus doentes, no seu consultório. Nos Acordos Colectivos celebrados (ACCEM - ACT nº2/2009, já publicado) é patente a preocupação sindical de introduzir regras precisas de decência. São claras e concisas. Vai lê-las neste sentido quem quiser lê-las. Vai desvalorizá-las quem quiser treslê-las.
Mas na política, na política de saúde e na política da Saúde a coisa parece ser bem diferente.
Vejamos, de forma não exaustiva, alguns exemplos recentes.
Todos conhecem José Roquette. Excelente profissional e técnico competente, não se coibiu de tentar demonstrar ser possível desempenhar em simultâneo, com isenção, o cargo de Director Clínico, nomeado, de um Hospital epe, o Hospital de Santa Marta e o cargo de Director Clínico do Hospital da Luz, propriedade do grupo BES. Não parece ter conseguido convencer Correia de Campos que fez um Despacho á medida, acabando com o dislate (Curriculum).
Todos conhecem José Miguel Boquinhas . Excelente profissional e técnico competente, antigo Secretário de Estado da Saúde e presidente do conselho de adminstração do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, não se coibiu de saltar de cadeira para a gestão do Hospital dos Lusíadas, do grupo HPP, Caixa Geral de Depósitos (RTP) e liderar, no presente, através do grupo HPP, a gestão do Hospital de Cascais, ganha em PPP.
Todos conhecem Luis Pedroso de Lima. Excelente profssional e técnico competente, pôs a engenharia de minas ao serviço de Luis Filipe Pereira, num dia de golfe (na Curia?), e ocupou a presidência da Unidade de Missão dos Hospitais SA (JN), por troca com Mendes Ribeiro. Com o advento socialista, rumou ao SUCH ocupando a Vice-Presidência de Paula Nanita, criou e presidiu ao conhecido ACE - Compras Partilhadas em Saúde (SOMOS) e deixou um buraco financeiro respeitável (SaúdeSA) quando viajou para a Comissão Executiva da HPP, juntando-se a José Miguel Boquinhas (HPP).
Chega de exemplos... por hoje.
O que se pretende não é trazer nomes à liça mas sim demonstrar a facilidade com que se ocupam os vários lados da mesa da política da Saúde, como se passa dum lado ao outro no mesmo dia e, maxime, como se está de forma prazenteira nos dois lados, sem um período, mesmo que mínimo, de nojo e decência.

3 comentários:

  1. Caríssimo Hermínio , não sei se esta será uma análise a ter em conta mas fica a info:
    http://resistir.info/e_rosa/hospitais_epe.html

    Afinal nem tudo parece ser um mar de rosas..em todos os momentos da vida política portuguesa , e relacionado com o sector da saúde verificam-se um cem número de dificuldades que se tem traduzido de certa forma na degradação do SNS.
    Será devido à inabilidade? Serão as contingências sociais e económicas a causa?Será a falta de planeamento estratégico que condicionam os resultados? Serão as políticas erradas ou não, no que respeita ao sector da saúde? Não importa quem faz a gestão, importa como é efectivada , que caminhos são percorridos, que análise se faz dos resultados e o porquê desses mesmos resultados positivos ou negativos.
    Obviamente nem tudo é negativo e os bons profissionais sejam eles de que sector profissional forem , marcam a diferença na qualidade dos cuidados de saúde prestados. Há bons e menos bons, há os que se interessam e dedicam e os que nem por isso. Ambivalências sempre existiram e sempre existirão , seja em que quadrante for. Cabe a quem de direito "moralizar" as situações dúbias que induzem a uma dualidade comportamental e de atitude. Mas pertence também ao Sindicalista em geral , a acção que permita proporcionar o alerta e a correcção das "oportunidades" menos consentâneas com os valores , com a dignidade e com o respeito que devemos uns aos outros enquanto trabalhadores do sector da saúde. Por isso acredito no esforço expresso pelo seu comentário que cito: Nos Acordos Colectivos celebrados (ACCEM - ACT nº2/2009, já publicado) é patente a preocupação sindical de introduzir regras precisas de decência. São claras e concisas ".

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  2. Ja agora, o que dizer da exclusão de todo o pessoal de saude que contactam directamente com os doentes com Gripe A terem ficado excluidos da primeira fase de vacinação, aparentemente em detrimento de insubstituiveis, como por exemplo os enfermeiros da Saude 24, constantemente sujeitos a contagio através do telefone.

    Decência e pudor é o que faz falta.

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